"Superalimentos" ou "superfurada"?

A verdade por trás da nova moda da vida saudável.

Troque a manteiga pela margarina. Comer ovo faz mal. Suco de caixinha é igual ao natural, adoçante emagrece...

Estas são só algumas das recomendações que perseguem aqueles que buscam um estilo de vida saudável. A todo momento, somos bombardeados por novas dietas e modismos que prometem emagrecimento, saúde e uma vida mais longa com qualidade. A moda da vez é a introdução dos "superfoods" (ou "superalimentos") na nossa rotina alimentar. Mas, será que eles devem ser tachados como super?

Antes de questionar o movimento, é preciso explicá-lo.

Apesar de não haver qualquer base científica ou regulamento específico que classifique um alimento como um "superalimento", ele recebe o título informal quando é rico em nutrientes(como antioxidantes, fibras, vitaminas, minerais etc), que ajudam na prevenção de doenças crônicas, como pressão alta e diabetes, e até doenças como o câncer e mal de Alzheimer.

"Um 'superfood' nada mais é um alimento rico em nutrientes", resume a nutricionista especializada em Fisiologia do Exercício Anielle D'Angelo. "Em pequenas quantidades, eles fornecem nutrientes de grande potencial para nossa saúde. Não precisamos consumir em excesso para obter esses benefícios."

Neste "supergrupo" estão, por exemplo, a linhaça e a chia, que em duas colheres de sopa já suprem toda a necessidade diária de Ômega 3, potente protetor cardiovascular. A alcachofra, por sua vez, tem um composto que ajuda na detoxificação do fígado, capaz de fazer uma "limpeza" no corpo. Já a couve-flor e o brócolis têm nutrientes que combatem diversos tipos de câncer, além de serem ricos em minerais, como cálcio, potássio, ferro e zinco, diversas vitaminas e fibras.

Outros "supers" são o cacau, açaí e as conhecidas berries (frutas silvestres como mirtilo, cranberry etc), fontes de vitaminas e ricos em antioxidantes, que combatem o envelhecimento das células e ainda são anti-inflamatórias. A extensa lista destes alimentos também cita abacate, banana, quinoa, grão de bico, aveia, kefir, gengibre, entre outros alimentos.

 

Superfood e os (super) lucros

Estes alimentos de "alta densidade nutricional" viraram febre no mundo da nutrição e dos adeptos às últimas modas de estilo de vida saudável -- o que chamou atenção da indústria, é claro. Afinal, quem não quer uma pequena fatia do segmento de alimentos e bebidas saudáveis que cresce cerca de 12% ao ano no Brasil, segundo agência Euromonitor Internacional?

Parece que tudo se encaixa para este mercado em ascensão: a era do "viral" e de digital influencers, que ditam tendências ao público jovem, pesquisas científicas sobre determinados alimentos, que ajudam a proliferar a procura, assim como já conhecidas campanhas de marketing de indústrias alimentícias envolvidas. Tudo isso colaborou para tornar os "superalimentos" como algo indispensável para nossa vida, e o resultado disso foi uma indústria de bilhões de dólares.

Segundo uma pesquisa da Nielson, em busca da alimentação saudável, os consumidores estão dispostos a pagar mais por alimentos que pareçam saudáveis, que estampam em suas embalagens os nutrientes "benéficos à saúde". A mesma pesquisa revelou que 80% dos consumidores americanos veem alimentos como "remédios" e os consomem para evitar problemas de saúde como obesidade, diabetes e hipertensão.

Não é surpresa, então, que a indústria crie novas comidas à base destes "superfoods" — mesmo que, muitas delas sejam ultraprocessadas e levam em sua composição diversos aditivos, ficando bem longe, em termos nutricionais, dos grãos, frutas, sementes e verduras que originaram o título de "super".

De acordo com um estudo da Mintel em 2015, houve um crescimento de 36% no número de comidas e bebidas industrializadas rotuladas como "superalimentos" nos Estados Unidos.

Ou seja, a indústria utiliza esses alimentos (que deveriam ser consumidos in natura para obter os benefícios) para criar outros tipos de alimentos processados e embalados (como chips, macarrão, sucos, biscoitos, doces etc) e, assim, obter lucro com a busca do consumidor por comer de modo mais saudável.

Para se ter ideia, a criação da palavra "superfood" veio de uma peça publicitária.

Hoje os "superalimentos" são tema de estudos de nutricionistas, cientistas e médicos, mas sua origem nasceu de uma campanha publicitária no início do século 20, em meados da Primeira Guerra Mundial. Pensando em aumentar a importação de bananas nos EUA, a United Fruit Company espalhou panfletos informativos sobre os benefícios da fruta.

No início, a empresa anunciava a praticidade da banana na dieta diária, já que ela era barata, nutritiva, fácil de carregar e prática de comer, pois não precisa ser cozinhada. Depois, sugeriu formas diversas de comer a fruta, como nos cereais no café da manhã, como sobremesa e até como parte das refeições, fritas ou assadas.

No entanto, a popularidade da "superbanana" subiu de vez quando revistas científicas publicaram a descoberta de que banana pode ajudar em doença celíaca e diabetes. Claro que a United Fruit Company espalhou essa novidade a todos os jornais dos Estados Unidos — o que faltava para a banana virar mania e todos os pais incluírem a banana nas lancheiras da criançada.

 

Em vez de superfood, invista num superprato (brasileiro)!

Não é preciso parar de comer os superalimentos só para evitar uma "lavagem cerebral" das redes sociais, mídia e das companhias de alimentos. Se colocados em uma alimentação variada e balanceada, você só tem a ganhar com isso, de acordo com a nutricionista Anielle D'Angelo.

"Não é aconselhável consumir só esses alimentos. O ideal é consumir outras frutas, legumes, grãos e demais alimentos que são ricos em outros nutrientes", explica a nutricionista.

Ela também aconselha consumir alimentos que são ofertados em abundância no Brasil, que custam menos que os importados, como o mirtilo ou cranberry, e são igualmente nutritivos. "Temos que tomar cuidado com o incentivo de produtos que não são territoriais, basta ter uma alimentação equilibrada."

"Quanto mais consumirmos alimentos locais e variados, melhor. Tanto para nossa saúde quanto para a saúde do planeta. Com certeza, se você olhar ao redor, vai encontrar alimentos brasileiros que são 'superfood'. Você pode consumir o cacau e o açaí, que são ricos em antioxidantes, assim como a mandioca, que é ótima fonte de fibras, que ajuda na redução do colesterol e não dá pico glicêmico. Também produzimos aveia, chia, linhaça, brócolis, couve-flor, entre outros."


Créditos: Conteúdo originalmente publicado em HuffPost Brasil

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